O ano de 2025 foi marcado por contrastes financeiros expressivos na elite do futebol brasileiro, com o cenário de faturamento recorde ao longo do último ano ainda pressionado por dívidas elevadas e uma dependência da venda de jogadores.
Segundo a 17ª edição do Relatório Convocados, produzido pela Convocados Gestão e Futebol, Outfield e apoio da Galapagos Capital, divulgado nesta quinta-feira (28), os clubes precisam melhorar sua solidez financeira para atrair mais investimentos.
Em 2025, as receitas totais dos clubes da Série A atingiram R$ 14,3 bilhões, impulsionadas substancialmente pela Copa do Mundo de Clubes e, sobretudo, pelas transferências de atletas, que saltaram 63% em relação a 2024. O Flamengo lidera a lista, com uma receita anual de R$ 1,97 bilhão, seguido pelo Palmeiras, com R$ 1,6 bilhão; o Botafogo, com R$ 1,37 bilhão; e o Fluminense, com R$ 1,02 bilhão.
Contudo, a saúde financeira dos clubes fica evidente ao se olhar para as receitas recorrentes, aquelas geradas pela operação cotidiana, excluindo as vendas de atletas e premiações, que somaram R$ 9,5 bilhões.
O ponto de atenção está nos custos e despesas dos clubes da elite, que cresceram 22% no ano, para R$ 10,3 bilhões, sendo que R$ 6,49 bilhões foram consumidos apenas para pagar salários, gastando 108% daquilo que ganham de forma perene no dia a dia.
Esse desequilíbrio afeta diretamente a geração de caixa diária, que vem caindo ano após ano desde o levantamento de 2021, e aprofundou ao longo dos últimos 12 meses, atingindo a marca negativa de R$ 488 milhões.
Estimulados pelo momento de alta nas receitas totais, os clubes realizaram investimentos na casa dos R$ 4,8 bilhões em 2025, com a quase totalidade, R$ 4,4 bilhões, indo para montagem de elenco.
Por outro lado, destaca-se a desaceleração nestes investimentos. Entre 2023 e 2024, houve alta de 78%, contra apenas 9% registrados entre 2024 e 2025.
Comparando as receitas dos clubes com transferências de atletas com o valor gasto com contratações nos últimos três anos, outro dado preocupante é revelado: 11 dos 20 times da primeira divisão gastaram mais do que receberam. O Cruzeiro, cuja sociedade anônima de futebol (SAF) foi adquirida pelo empresário Pedro Lourenço em 2024, lidera a lista, com um déficit de R$ 620 milhões.
Esses investimentos pesados, que muitas vezes não possuem lastro financeiro sólido, continuam inflando o bolo das dívidas, com a dívida líquida dos clubes da Série A batendo o alarmante patamar de R$ 17,3 bilhões, alta de 15% sobre 2024.
O que chama a atenção dos organizadores do relatório é a mudança no perfil dessa dívida, as chamadas obrigações “onerosas” (bancárias) diminuíram por falta de garantias, fazendo disparar as obrigações “operacionais”.
Além disso, as dívidas de curto prazo avançaram para R$ 1,6 bilhão, gerando ainda mais pressão nos caixas e comprometendo o giro das instituições, com queima de caixa de R$ 1,6 bilhão só para pagamento de despesas financeiras no ano passado.
Buscando conter esse ambiente permissivo de endividamento e inflação descontrolada das folhas salariais, 2025 foi o marco zero para o Sistema de Sustentabilidade Financeira, que introduziu regras para apertar o cerco sobre times endividados.
Em uma simulação das regras já rodadas no exercício de 2025, o relatório projetou que nove clubes teriam sido sumariamente reprovados pelos novos controles e sofreriam desde advertências até proibições de inscrições de atletas e rebaixamentos.
A Série B, que teve uma receita total de R$ 2 bilhões em 2025, ainda expõe o fosso esportivo nacional, apresentando um prejuízo de R$ 33 milhões em média por clube, indicativo de que a bonança financeira da Série A não aparece na segunda divisão.
*Estagiário sob a supervisão de Nelson Rocco
27/05/2026 17:25:09