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Geração Ansiosa

Nos dois artigos anteriores procurei construir um caminho antes de chegar às técnicas com as quais trabalho. Fiz isso deliberadamente.

Seria fácil começar falando de Hipnose Não Verbal, Magnetismo Humano ou Fascinação Mental como respostas para uma sociedade ansiosa. Mas isso inverteria o raciocínio. Antes de discutir qualquer possibilidade de intervenção, precisamos compreender minimamente o fenômeno sobre o qual pretendemos atuar.

A ansiedade não acontece apenas no pensamento. Ela envolve corpo, atenção, memória, antecipação, aprendizagem, ambiente e história individual. Também não é uma experiência única. A inquietação diante de uma decisão importante não pode ser colocada no mesmo nível de uma crise de pânico ou de um transtorno de ansiedade diagnosticado.

Essa distinção é necessária.

Minha experiência como terapeuta ensinou me a desconfiar de respostas que servem para todo mundo. Quando alguém afirma possuir uma técnica capaz de resolver indistintamente qualquer manifestação de ansiedade, normalmente está simplificando o problema ou superestimando a própria ferramenta.

Não é esse o caminho que proponho.

O que me interessa aqui é outra coisa: compreender por que determinadas mudanças de estado podem acontecer antes mesmo que consigamos explicá-las racionalmente.

Nem toda comunicação acontece pela palavra

Grande parte daquilo que fazemos em uma relação humana ocorre sem elaboração verbal consciente.

Percebemos a expressão de alguém, sua postura, distância, velocidade dos movimentos, direção do olhar, ritmo da fala, pausas, respiração. Não precisamos analisar cada um desses elementos para que eles participem da experiência.

Entramos em um ambiente e percebemos tensão antes mesmo de saber o que aconteceu.

Conversamos com alguém e sentimos que existe uma diferença entre aquilo que a pessoa diz e a maneira como diz.

Uma mãe pode perceber que o filho está preocupado antes que ele conte alguma coisa. Um profissional experiente identifica insegurança em uma negociação por sinais de que talvez tivesse dificuldade de enumerar depois.

Nada disso exige explicações extraordinárias.

A comunicação humana nunca foi exclusivamente verbal.

Quando comecei a aprofundar meus estudos e minha prática com Hipnose Não Verbal, foi justamente esse território que mais me interessou. Se tantos elementos capazes de modificar uma interação acontecem fora da palavra, por que limitar o estudo dos estados de consciência apenas ao discurso?

A pergunta parece simples. Suas consequências não são.

Hipnose Não Verbal não é ausência de comunicação

O nome pode induzir a um equívoco.

Não verbal não significa sem comunicação. Significa que a palavra deixa de ocupar a posição central.

Na Hipnose Não Verbal trabalhamos com atenção, presença, ritmo, gestos, distância, olhar e outros elementos da interação que podem participar da modificação de um estado. Dependendo da abordagem utilizada, existem ainda procedimentos próprios desenvolvidos dentro das diferentes escolas de hipnose.

Não considero correto afirmar que a técnica “entra diretamente no inconsciente”, expressão bastante utilizada nesse meio e que parece explicar muito mais do que realmente explica.

Também não preciso dessa afirmação para reconhecer aquilo que observo na prática.

Uma pessoa pode modificar sua respiração sem que eu peça verbalmente que respire de outra maneira. Pode diminuir movimentos, alterar a expressão facial, fechar os olhos ou apresentar mudanças perceptíveis na qualidade da atenção durante uma interação predominantemente não verbal.

Isso acontece.

O que exatamente participa de cada uma dessas respostas é uma questão mais complexa.

Expectativa, contexto, vínculo terapêutico, foco atencional, aprendizagem, sugestão implícita, características individuais e elementos próprios da interação podem estar envolvidos. Seria imprudente escolher um único mecanismo e transformá-lo em explicação universal.

Na prática, interessa me observar o fenômeno sem precisar inventar uma de onde ela ainda não existe.

Onde entra o Magnetismo Humano

Quando falamos em Magnetismo Humano, entramos em um campo que exige ainda mais cuidado conceitual.

O termo possui uma história.

Franz Anton Mesmer, no século XVIII, formulou sua teoria do magnetismo animal dentro de uma compreensão de mundo muito diferente daquela que possuímos hoje. Algumas ideias defendidas naquele período não encontraram confirmação científica posterior. Isso precisa ser reconhecido sem dificuldade.

Ao mesmo tempo, a história não terminou em Mesmer.

As práticas desenvolvidas naquele contexto participaram, direta ou indiretamente, da trajetória que posteriormente levaria ao estudo do hipnotismo e de fenômenos relacionados à sugestão, atenção e alteração de estados.

Quando utilizo hoje a expressão Magnetismo Humano, portanto, não considero intelectualmente correto apresentar como fato científico a existência de um fluido magnético humano nos moldes originalmente propostos por Mesmer.

Mas também não reduzo toda a experiência humana ao que conseguimos medir atualmente.

Minha posição está entre essas duas atitudes.

Há fenômenos que observo na prática e que interpreto a partir de uma tradição de estudo na qual fui formado. Há outros que podem ser compreendidos por mecanismos psicológicos e fisiológicos conhecidos. E existem questões para as quais ainda não considero que tenhamos respostas suficientes.

Não vejo problema algum nisso.

A dúvida faz parte de qualquer investigação séria.

Presença não é uma palavra bonita

“Estar presente” tornou se uma expressão tão repetida que às vezes perdeu conteúdo.

Presença, como utilizo o termo aqui, não significa pensamento positivo, serenidade permanente ou uma espécie de estado espiritual ideal.

Estou falando de algo mais concreto.

É a capacidade de permanecer suficientemente ligado à experiência que está acontecendo sem ser continuamente arrastado por antecipações, lembranças e estímulos concorrentes.

Uma pessoa pode estar sentada diante de mim e não estar realmente ali em termos de atenção.

O corpo ocupa a cadeira. A mente está na reunião de amanhã, na conversa de ontem, no boleto que vence, na mensagem que ainda não recebeu.

Na ansiedade isso pode se intensificar porque a atenção é convocada repetidamente para possibilidades futuras.

O presente passa a ser utilizado apenas como lugar de onde se pensa o que ainda poderá acontecer.

Quando trabalho presença, portanto, não estou tentando esvaziar a mente de alguém. Isso seria uma expectativa pouco realista.

Procuro modificar a relação da pessoa com aquilo que está acontecendo naquele momento.

Às vezes isso passa pela respiração.

Em outras situações, pelo olhar.

Pelo silêncio.

Pela postura.

Pela redução dos estímulos.

Ou simplesmente por sustentar durante algum tempo uma experiência sem fugir imediatamente dela.

É menos espetacular do que algumas descrições de estados alterados de consciência fazem parecer.

E talvez exatamente por isso seja tão importante.

Fascinação Mental e atenção

A Fascinação Mental também costuma ser envolvida por uma linguagem que, a meu ver, nem sempre ajuda a compreendê la.

Historicamente, fascinação esteve associada ao olhar, à influência e a determinados estados produzidos na interação entre pessoas. Em algumas tradições, recebeu interpretações magnéticas e energéticas. Em outras, aproximou se dos estudos da sugestão e da hipnose.

Na maneira como trabalho esse campo, a atenção ocupa posição fundamental.

Uma pessoa ansiosa frequentemente apresenta atenção fragmentada. Ela tenta acompanhar simultaneamente aquilo que acontece, aquilo que teme que aconteça e aquilo que acredita que deveria estar fazendo.

A fascinação trabalha na direção contrária dessa dispersão.

O foco se estreita.

Determinados estímulos perdem momentaneamente importância.

A experiência ganha outra organização.

Isso não significa que estejamos diante de controle mental. Muito menos que alguém possa ou deva utilizar essas técnicas para retirar autonomia de outra pessoa.

Essa fantasia acompanha a hipnose há muito tempo e pouco contribui para uma compreensão séria do fenômeno.

Influência existe em qualquer relação humana. O terapeuta influencia o paciente. O paciente influencia o terapeuta. Um professor modifica o estado de uma sala e a sala também modifica o professor. Uma pessoa agitada pode aumentar a tensão de um ambiente; alguém sereno pode produzir efeito diferente.

O ponto ético não está em fingir que influência não existe.

Está em compreender como ela é utilizada.

O que acontece entre duas pessoas

Há um fenômeno bastante conhecido nas relações humanas que ajuda a avançar nessa discussão: a corregulação.

Não regulamos nossos estados exclusivamente sozinhos.

Desde o início da vida, dependemos da relação com outras pessoas para organizar parte de nossas respostas emocionais. Isso permanece, de formas diferentes, na vida adulta.

A presença de alguém em quem confiamos pode modificar nossa experiência diante de uma situação difícil. O contrário também ocorre. Determinadas relações aumentam tensão, insegurança e vigilância.

No contexto terapêutico isso ganha relevância.

A forma como o terapeuta fala, escuta, se movimenta, respeita o silêncio e responde ao estado apresentado pela pessoa participa da sessão. Não é um detalhe periférico.

Mas aqui faço uma separação que considero necessária.

Corregulação é um conceito que pode ser estudado dentro da psicologia e das relações interpessoais. Magnetismo Humano pertence a uma tradição própria. Existem pontos de contato possíveis na experiência, mas não devemos afirmar que uma coisa comprova cientificamente a outra.

Durante muito tempo, áreas não convencionais buscaram legitimidade utilizando palavras da ciência para explicar praticamente tudo.

Energia tornou se frequência.

Frequência tornou se vibração.

Vibração tornou se física quântica.

E, em algum momento, qualquer experiência humana parecia possuir uma explicação neurocientífica pronta.

Não considero que isso fortaleça nosso campo.

Quando não sabemos, podemos dizer que não sabemos.

Isso não diminui a experiência.

Apenas impede que a explicação ultrapasse aquilo que conseguimos sustentar.

A experiência vem antes da interpretação

Existe uma situação que observo repetidamente.

Depois de determinado trabalho, pergunto à pessoa o que aconteceu e ela demora alguns segundos antes de responder.

Não porque tenha perdido a consciência.

Ela simplesmente está tentando transformar uma experiência em linguagem.

Primeiro aconteceu.

Depois veio a explicação.

Essa ordem merece atenção.

Vivemos em uma cultura que valoriza muito a compreensão racional, e com razão. Compreender ajuda a organizar experiências, reconhecer padrões e tomar decisões.

Mas compreender intelectualmente não modifica automaticamente aquilo que sentimos.

Uma pessoa pode conhecer perfeitamente os mecanismos envolvidos em sua ansiedade e continuar ansiosa.

Pode saber que determinada situação não representa perigo e ainda assim reagir a ela.

Pode estudar técnicas de relaxamento durante anos e descobrir, num determinado momento, que nunca experimentou verdadeiramente um estado profundo de redução da vigilância.

Existe uma distância entre saber sobre um estado e vivê-lo.

Meu interesse terapêutico está justamente nessa distância.

Técnica não substitui diagnóstico

É aqui que considero necessário estabelecer um limite.

Hipnose Não Verbal, Magnetismo Humano, Fascinação Mental, exercícios de atenção ou práticas de presença não devem ser utilizados como substitutos automáticos para avaliação psicológica ou médica quando ela é necessária.

Ansiedade pode aparecer associada a diferentes condições clínicas. Sintomas físicos também podem ter causas que nada têm a ver com ansiedade.

Por isso, qualquer abordagem responsável começa reconhecendo os próprios limites.

Em minha prática, não considero encaminhar alguém a outro profissional uma demonstração de fracasso terapêutico. Ao contrário. Há situações em que essa é precisamente a conduta correta.

Também existem casos em que diferentes abordagens podem coexistir.

A questão nunca deveria ser defender uma técnica.

Deveria ser compreender a pessoa.

Então, o que significa resgatar a presença?

Depois de tudo isso, talvez seja possível retornar à pergunta que atravessa esta série.

Se vivemos em um ambiente que disputa continuamente nossa atenção, antecipa preocupações e reduz os intervalos naturais da experiência, o que podemos efetivamente fazer?

Não acredito em uma resposta única.

Mas acredito que recuperar a capacidade de permanecer no presente faz parte dela.

Isso não eliminará as incertezas políticas.

Não resolverá uma dificuldade financeira.

Não fará desaparecer um problema familiar.

Também não transformará ansiedade patológica em tranquilidade por simples decisão.

O que pode mudar é o lugar a partir do qual lidamos com essas situações.

Há diferença entre enfrentar um problema e passar o dia inteiro antecipando todos os problemas possíveis.

Há diferença entre planejar o futuro e viver mentalmente dentro dele.

E existe diferença entre experimentar ansiedade e entregar a ela a organização de toda a vida.

A presença não elimina o futuro.

Apenas devolve ao presente o espaço que ele perdeu.

No próximo e último artigo desta série, quero avançar justamente para esse ponto. Depois de compreender a aceleração, o corpo e a experiência não verbal, resta uma questão talvez mais difícil: como viver em um mundo que provavelmente continuará acelerado sem exigir que o mundo inteiro desacelere para que consigamos encontrar algum equilíbrio?

Não tenho interesse em terminar essa reflexão oferecendo dez passos, cinco técnicas ou uma promessa de transformação.

A vida não funciona dessa maneira.

Mas algumas mudanças são possíveis. E começam quando deixamos de procurar apenas maneiras de controlar aquilo que sentimos e passamos a compreender como estamos vivendo.

Continua na Parte 4: Aprender a viver num mundo que não vai desacelerar.

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