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O erro de previsão que o setor já pagou uma vez

Mariana Soares

A repactuação de Brasília corrige uma demanda que veio abaixo do previsto. O mesmo contrato anexa dez aeroportos que ninguém sabe prever, nem medir.

Em dezembro vai a leilão a repactuação da concessão de Brasília. Junto com o terminal da capital, o vencedor leva dez aeroportos regionais em cinco estados.

Vale lembrar por que esse contrato está sendo refeito. A concessão chegou à repactuação depois de anos operando com movimento aquém do que os estudos projetaram.

Ou seja: o setor acaba de pagar caro por um número de demanda que estava errado. E esse número foi produzido para o ativo mais bem medido que existe no sistema, aeroporto de capital, tráfego internacional, série histórica longa, operação acompanhada de perto.

Se a previsão falhou ali, com tudo a favor, o contrato que corrige a falha faz uma coisa curiosa: Ele multiplica por dez a quantidade de ativos cuja demanda vai precisar ser prevista, porém, não cria em nenhum deles a capacidade de medi-la.

O pequeno é o mais difícil

O senso comum inverte isso:  Aeroporto pequeno parece mais simples de prever porque é menor, porém é exatamente o contrário.

Base pequena tem variância proporcional alta. Um voo semanal a menos em Cáceres desloca o percentual mais do que dez mil passageiros a menos deslocam em Brasília.

A demanda desses terminais depende de decisão de malha de uma ou duas companhias, de calendário de safra, de evento local.

Série ruidosa sobre base curta é a combinação mais ingrata que existe para projeção.

A trigésima hora

Fazer uma previsão aqui não é exercício acadêmico, pois está amarrada em obrigação contratual.

As ampliações posteriores à primeira rodada de obras são disparadas por gatilhos acionados pelo crescimento da demanda. O contrato define o limiar, a demanda o alcança, a obrigação de investir nasce ali.

E o modo como esse limiar é escrito diz tudo sobre o tipo de informação que o modelo pressupõe. O Plano de Exploração Aeroportuária de Brasília define Hora Pico como a 30ª hora mais movimentada do ano civil.

Não é a hora mais cheia: É a trigésima.

A escolha é deliberada: ninguém dimensiona infraestrutura para o pior momento do ano, porque isso é erguer capacidade ociosa nas outras 8.759 horas.

Só que, para saber qual é a 30ª hora mais movimentada, é preciso ter as 8.760 registradas e ordenadas.

Não é total mensal nem muito menos a média. É uma distribuição inteira, e distribuição não se reconstrói de memória.

Quem não tem essa série não perde apenas um relatório, perde a capacidade de saber quando a obrigação de investir vai chegar.

A realização de uma obra antecipada é capital imobilizado sem receita correspondente, que foi o que aconteceu em Viracopos. No entanto, obra atrasada é inadimplemento, e só fica evidente depois que a demanda passou do limiar.

Onze ativos, um modelo

É aqui que a heterogeneidade do bloco deixa de ser característica e vira obstáculo.

As decisões que o operador vai tomar não se respondem ativo por ativo. Onde alocar no próximo ciclo. Qual operação sustenta uma nova rota. Onde a estrutura está apertada e onde está sobrando. Todas exigem comparar os onze entre si.

E comparar exige que tenham sido medidos do mesmo jeito. Não foram. Cada um vem de um administrador diferente, com um jeito próprio de anotar o que acontece, quando anota.

O consolidado que chega à mesa é a soma de coisas que não são a mesma coisa. Com o ativo principal dominando o total por peso, e os dez outros entrando como ruído que ninguém sabe interpretar.

Há ainda uma assimetria que fecha o raciocínio. Quando a previsão falha no ativo grande, existe remédio, é por isso que há um leilão em dezembro. Quando falha no pequeno, não existe. Ninguém repactua contrato por causa de Alto Paraíso.

O erro fica onde caiu, absorvido pelo bloco, invisível no número consolidado. E o que não aparece não se corrige.

A janela

O edital criou uma Fase de Diagnóstico Inicial, em que o futuro operador avalia cada terminal antes de os investimentos serem fixados. É um avanço real: o modelo anterior pedia que se precificasse obra em ativo que ninguém tinha visitado.

Mas o escopo é físico e fundiário: Pista, pátio, terminal, terreno. Responde quanto custa recuperar dez aeroportos e não responde como cada um conta o que acontece lá dentro. Sequer se sabe quais dos dez mantêm registro horário de movimento, porque não há no processo nenhuma pergunta que apure isso.

O que importa é a ordem. O diagnóstico acontece antes da transferência, enquanto os dez ainda estão nas mãos de quem os administra hoje. É o único momento em que dá para recolher o histórico que porventura exista, com quem ainda tem os arquivos, e definir o que passará a ser registrado, sem mexer na rotina de ninguém.

Depois, cada equipe monta o processo que couber na realidade dela. É a decisão correta localmente. E é o que produz dez formas diferentes de contar a mesma coisa.

A janela não fecha por decisão de ninguém e sim sozinha.

A pergunta

O que fecha essa distância não é sistema e sim a definição.

Um punhado de coisas que todos os ativos registram de maneira idêntica, decidido antes da transferência. O que conta como ocorrência. Onde começa e termina o tempo de solo. Como se contabiliza movimento hora a hora. Cinco ou seis itens, e nenhum deles exige que um aeroporto com dois voos por dia opere como um hub.

Os pedidos de esclarecimento sobre o edital vão até 23 de outubro. Cabe perguntar o que o Relatório de Diagnóstico Inicial deve conter a respeito.

Brasília errou a previsão tendo à disposição tudo o que era preciso para acertar.

Em quantos dos dez aeroportos que entram junto alguém saberia dizer, hoje, qual foi a trigésima hora mais movimentada do ano passado?

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