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O que é muxarabi? Entenda e confira dicas para usar na decoração

O que é muxarabi? Entenda e confira dicas para usar na decoração

É muito provável que você já tenha se deparado com um painel vazado de madeira, repleto de formas geométricas, dividindo a sala de um apartamento decorado ou compondo a fachada de uma casa contemporânea. Esse elemento construtivo, que permite a ventilação e a iluminação cruzada enquanto garante a privacidade de quem está no interior, chama-se muxarabi.

Apesar de ser uma forte tendência no mercado atual de arquitetura e design de interiores, esse estilo não é uma novidade moderna. Para entender a história, a função e a aplicação correta dessa estrutura, a CNN Brasil conversou com Andrea Braga, pesquisadora em história e arquitetura.

A especialista começa esclarecendo uma dúvida comum sobre a pronúncia e a gramática da palavra: diz-se “os muxarabis”, com a sílaba tônica no final, sem a necessidade de acento gráfico.

A origem islâmica e a regra de “ver sem ser visto”

Segundo a especialista, a etimologia da palavra deriva do termo árabe mashrabiya. Embora a tradução mais próxima do sentido original remeta a “um lugar de beber” ou “local onde se colocam recipientes de água”, o uso arquitetônico consagrou o termo como uma janela ou sacada vazada em treliça.

A estrutura surgiu na arquitetura islâmica medieval, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África. “Basicamente, é um elemento construtivo de fechamento em que a permeabilidade de ventilação, iluminação ou insolação é mantida”, explica Andrea. A grande engenharia social por trás do desenho é a privacidade: as treliças geométricas ou rendilhadas permitem que os ocupantes do imóvel consigam “ver sem ser vistos”.

O encontro de culturas e a proibição no Brasil Império

O muxarabi chegou ao Brasil principalmente por influência da arquitetura portuguesa, que absorveu a tradição mourisca após séculos de convivência na Península Ibérica. No entanto, imigrantes africanos islâmicos (árabes e berberes) também trouxeram contribuições diretas, criando uma rica mistura de padronagens.

O que poucos sabem é que esses balcões vazados já foram proibidos por lei no Brasil. Em 1810, com a chegada da família imperial, Dom João VI decretou a extinção dos balcões mouriscos.

“A justificativa oficial era a segurança pública, baseada no fato de que um governador de Pernambuco havia sido assassinado por um tiro disparado através das frestas de um muxarabi. Como consequência, eles foram arrancados e substituídos por venezianas e vidraças europeias. Contudo, historiadores apontam que o banimento também foi um esforço eurocentrista para apagar a herança árabe, berbere, africana e indígena da paisagem nacional e forçar o comércio com a Inglaterra”, explica Andrea.

A arquitetura colonial brasileira, porém, produziu soluções híbridas riquíssimas a partir do mesmo princípio de filtrar luz e vento. Para não errar na nomenclatura, a pesquisadora aponta as diferenças:

  • Muxarabi: elemento de origem islâmica, sofisticado, tradicionalmente projetado para fora da fachada como um balcão fechado com tramas de madeira.
  • Gelosia: termo europeu amplo para qualquer fechamento vazado (madeira, concreto, metal) que restrinja parcialmente a visão.
  • Adufa: versão luso-brasileira de veneziana ou gelosia de madeira.
  • Urupema: trama indígena de fibras vegetais usada como peneira, que acabou inspirando fechamentos vazados em construções brasileiras.
  • Cobogó: invenção pernambucana de 1929. É a evolução industrial do muxarabi. Enquanto o original é artesanal e de madeira, o cobogó utiliza blocos modulares de concreto ou cerâmica.

Como usar o muxarabi na arquitetura de interiores

Na prática residencial contemporânea, o muxarabi atua como um delimitador de espaços que não cria barreiras visuais pesadas. Ele compartimenta ambientes, controla a incidência solar e amplia a experiência sensorial do morador por meio do jogo estético de luz e sombra projetado nas superfícies.

“Em imóveis compactos, a solução é altamente estratégica. Painéis deslizantes, portas de correr em trilhos e divisórias articuladas delimitam os ambientes sem bloquear a ventilação natural. O elemento pode ser aplicado até mesmo no design de mobiliário, como portas de guarda-roupas, frontões de gavetas e racks, especialmente quando integrados com iluminação interna, criando a ilusão de uma textura leve”.

Materiais e estilos

A pesquisadora também explica que, embora a madeira seja o material clássico e ofereça o melhor conforto visual, o mercado expandiu as possibilidades construtivas:

  • MDF: alternativa econômica para interiores, com ampla gama de cores.
  • Alumínio e PVC: resistentes à umidade, ideais para áreas externas ou molhadas.
  • Aço corten ou carbono: criam um aspecto brutalista, perfeitos para a linguagem industrial.
  • Fibras naturais: bambu, corda náutica ou palhinha sextavada garantem o aspecto acolhedor do estilo boho ou tropical.
  • Materiais inusitados: os irmãos Campana, expoentes do design nacional, chegaram a criar muxarabis escultóricos utilizando papelão corrugado prensado.

Erros comuns na hora da instalação

Segundo Andrea Braga, os erros mais comuns na instalação do muxarabi começam por ignorar o estudo climático do terreno, posicionando o fechamento vazado em fachadas com incidência direta de chuva forte, o que pode alagar o ambiente interno.

A especialista também alerta para a escolha de materiais sensíveis, como madeira ou MDF, em áreas com alta exposição ao sol contínuo ou umidade excessiva, além de tramas com desenhos excessivamente fechados, que anulam a ventilação e bloqueiam a iluminação natural.

Outro equívoco apontado por ela é utilizar padrões altamente ornamentados e rebuscados em cômodos muito pequenos, gerando poluição visual pesada. Por fim, Andrea reforça um ponto técnico fundamental: “O muxarabi é exclusivamente um elemento de vedação e não possui qualquer capacidade de sustentação estrutural”, finaliza.



Revista do Ceará e CNN

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