Um costume do Japão, que joga neste domingo contra a Holanda às 17h, ganha o mundo a cada quatro anos e já rendeu até prêmio da Fifa. A tradição do osoji resulta no ato de limpar as arquibancadas dos estádios após as partidas da Copa do Mundo.
O ōsōji significa, em tradução literal para o português, “a grande limpeza”. Se trata de uma prática tradicional realizada frequentemente em dezembro para preparar a casa para a chegada do próximo ano.
A origem da tradição remonta ao antigo período Período Heian (794–1185), a última era do Japão Clássico. Na época, o evento cerimonial chamado “Susuharai” acontecia em dezembro, onde a fuligem acumulada das antigas lareiras era purificada para dar as boas-vindas às divindades que traziam o ano seguinte. A tradição foi amadurecendo e sendo expandida e se tornou uma tradição de limpar as residências no último dia do ano para celebrar a chegada do novo ciclo.
O osoji, porém, não termina nele próprio, segundo Humberto Takubunji Nakamura, 2° vice-presidente do Instituto Cultural Brasil-Japão (ICBJ). Nakamura defende que a preocupação dos japoneses com a limpeza de fim de ano é consequência de um comportamento que é ensinado desde a infância para as crianças japonesas.
No Japão, as crianças limpam salas de aula e corredores da escola desde a infância. A figura do profissional que é encarregado apenas da limpeza do ambiente não é tão comum, já que é valorizado que cada pessoa cuide da limpeza de seu próprio espaço.
“Existe uma cultura que dá suporte a esse comportamento, uma formação desde criança para que as pessoas pensarem e se comportarem desta maneira. A limpeza não é um ato, é um comportamento“, diz Nakamura.
Desta forma, vão se perpetuando pequenas ações diárias — não só físicas, como também mentais — , como a separação do lixo doméstico para reciclagem, do cuidado para evitar acúmulo de objetos e móveis desnecessários, e a meditação para limpeza mental, por exemplo.
“Isso faz parte do civilismo japonês. Nas cidades mais sujas, o lixo é descartado em várias categorias, em algumas regiões é etiquetado com nome e endereço. Se você não separa corretamente, eles devolvem o lixo para sua casa”, diz Nakamura. Para se ter ideia, na pequena cidade japonesa Kamikatsu, onde foi declarado “lixo zero”, há mais de 40 categorias diferentes para separação do lixo doméstico.
Seguindo os mesmos princípios, de respeito e purificação, Nakamura cita até mesmo um princípio corporativo japonês que tem como pilar três “S”s: Seiri (Utilização), Seiton (Organização) e Seiso (Limpeza), conceito que foca na eliminação de desperdícios e na criação de um ambiente de trabalho mais eficiente e seguro.
Nas arquibancadas, essa cultura é refletida nessa coleta de todo o lixo que resta no ambiente após o apito do juiz ao final da partida, quando a maioria dos torcedores deixa o estádio da maneira como está — com restos de comida e bebida por todos os lados. Não importando quem ganhou ou perdeu, porém, torcedores japoneses frequentemente são vistos coletando as embalagens de comida, bebida e outros objetos deixados para trás pelos outros torcedores.
Nakamura, do ICBJ, garante que o mesmo acontecerá ao longo da Copa do Mundo 2026, enquanto o Japão estiver no páreo. “Observem sempre que tiver jogo do Japão. É uma predição. Tenho certeza que estarão limpos. Alguns torcedores japoneses até mesmo levarão seus próprios sacos de lixo para recolher”, declara.
O ato rendeu até homenagem. Cerca de 30 torcedores japoneses receberam um prêmio da Fifa na última Copa (2022, no Qatar). Um deles, o autoproclamado capitão da torcida organizada Chonmage (“topete”, em tradução literal), Tsun-san, admitiu em entrevista para o portal de notícias da Fifa que não sabia quando o costume começou em torneios internacionais, mas que isso já acontecia “há muito tempo” no país e que seu grupo não era pioneiro.
O Japão está no Grupo F. Os jogos da fase de grupos são:
- 14 de junho, às 17h: Holanda x Japão
- 21 de junho, às 1h: Tunísia x Japão
- 25 de junho, às 20h: Japão x Suécia