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Vinícola mineira testa técnica para aprofundar raízes dos vinhedos

Vinícola mineira testa técnica para aprofundar raízes dos vinhedos

Enquanto a maior parte do manejo dos vinhedos está voltada ao que acontece acima do solo como poda, condução da copa e controle da produção, uma técnica que busca estimular o aprofundamento das raízes começa a ganhar espaço na viticultura brasileira.

A proposta é fazer com que as videiras explorem camadas mais profundas do solo, aumentando o contato com o subsolo e com os minerais característicos do terroir que podem influenciar a qualidade dos vinhos.

O estudo é conduzido na vinícola Rastelli Wines, em Jacutinga (MG), na Serra dos Encontros, e investiga formas de estimular o aprofundamento do sistema radicular das videiras. O trabalho é liderado pelo viticultor chileno Héctor Vergara, profissional com mais de duas décadas de experiência em vinhedos no Chile, em parceria com o produtor Juliano Rastelli
.
A estratégia utiliza um manejo específico da irrigação por gotejamento. Em vez de concentrar grandes volumes de água em poucas aplicações, o sistema distribui pequenas lâminas de irrigação por períodos mais longos ao longo do dia. A umidade permanece por mais tempo nas camadas profundas do solo e estimula as raízes a crescerem em busca de água.

Os primeiros resultados já aparecem no campo. Segundo Juliano Rastelli, as raízes que antes se concentravam entre 40 e 50 centímetros de profundidade hoje ultrapassam 1,5 metro em algumas áreas do vinhedo. A evolução é acompanhada por meio da abertura periódica de trincheiras e a instalação de rizotrons, o que permite observar diretamente o desenvolvimento do sistema radicular.

À CNN, Vergara afirma que o intuito de aprofundar as raízes significa permitir que a planta tenha uma relação mais intensa com o solo. “O clima determina se é possível produzir vinho. Mas, depois que a videira está estabelecida, é o solo que define a qualidade”, comentou.

Segundo o especialista, uma videira com raízes superficiais explora apenas uma pequena parcela do terreno e depende mais das condições climáticas. Quando as raízes alcançam camadas mais profundas, a planta passa a acessar diferentes reservas de água e nutrientes, além de interagir com diferentes horizontes do solo.

“Você pode ter um excelente solo. Se as raízes estiverem na superfície, é como cultivar uma planta em um vaso.”

Esse comportamento ajuda a explicar por que alguns dos vinhedos mais antigos da Europa produzem vinhos reconhecidos mundialmente. Ao longo de décadas e, em alguns casos, séculos, as videiras desenvolveram sistemas radiculares profundos, capazes de explorar um grande volume de solo e refletir com mais fidelidade as características do terroir.

A proposta da pesquisa é acelerar esse processo por meio do manejo agronômico, sem alterar as características naturais do vinhedo.

O monitoramento também revelou diferenças importantes entre a viticultura brasileira e a praticada em regiões tradicionais produtoras de vinho. Em países como Chile, França e Itália, o crescimento das raízes costuma ocorrer em dois períodos principais do ciclo vegetativo.

Em Jacutinga, os pesquisadores observaram que, sob as condições da dupla poda, o sistema radicular permanece em crescimento praticamente contínuo entre novembro e abril.

A descoberta pode contribuir para novos protocolos de manejo em regiões produtoras de vinhos de inverno. Segundo Vergara, compreender o comportamento das raízes é um passo importante para aumentar a qualidade dos vinhos brasileiros sem modificar a identidade de cada vinhedo.

Já em processo de aprofundamento, os vinhos da Rastelli foram reconhecidos com medalhas de prata e bronze no prestigiado concurso britânico Decanter World Wine 2026.



Revista do Ceará e CNN

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