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Treasuries batem recorde e mundo descobre que desequilíbrio fiscal nunca foi “problema dos outros”

treasuries Estados Unidos

Os mercados globais de dívida soberana atravessaram uma semana de forte turbulência, culminando na quinta feira, 1º de outubro, com mais uma marca histórica em meio às preocupações dos investidores com o impacto da guerra americana com o Irã no preço do petróleo, a alta da inflação e o elevado endividamento público.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com vencimento em 10 anos — referência para o custo do dinheiro no mundo — chegaram a 5,34% no período da manhã, o maior nível em 24 anos, após registrar a maior alta trimestral nos rendimentos neste século, nos três meses encerrados em setembro. À tarde, recuaram para cerca de 5,26%, índice ainda elevado, aproximando-se dos patamares observados antes da crise financeira de 2007.

O salto, que começou na segunda, 28 de setembro, espalhou-se pela Europa e pela Ásia, pressionando os custos de financiamento de governos, empresas e famílias — na França, o rendimento dos títulos franceses com vencimento em 10 anos se aproximou de 5%, o maior patamar desde 2002, em meio ao debate no Legislativo sobre o orçamento anual.

O movimento não surgiu do nada — reflete o desequilíbrio fiscal que atinge os países do Primeiro Mundo, com déficits orçamentários frequentes, inflação fora da meta e juros em elevação, reflexo do aumento dos gastos públicos nacionais para fazer frente aos efeitos da pandemia.

É justamente essa combinação que acaba cobrando a fatura no porto de seguro dos Treasuries, em especial os de 10 anos — procurados freneticamente pelos investidores para se proteger desse desequilíbrio fiscal, o que explica o baixo valor dos papéis registrados nos últimos dias (os rendimentos e os preços dos títulos têm uma relação inversa).

A tensão aumentou no início da semana após o presidente dos EUA, Donald Trump, rejeitar a proposta de cessar-fogo do Irã para reabrir o Estreito de Ormuz — rota estratégica para o petróleo mundial.

O risco de prolongamento da crise energética reacendeu temores de inflação persistente. Investidores passaram a acreditar que, se o petróleo permanecer caro, o Federal Reserve terá de manter ou até elevar os juros por mais tempo.

Apesar da volatilidade, o sentimento geral nos mercados é ambíguo: há otimismo com o avanço da economia global, impulsionada pelos investimentos em inteligência artificial, mas também apreensão com a inflação resistente e com a incerteza sobre os próximos passos dos bancos centrais.

Termômetro

A rigor, os títulos do Tesouro dos EUA são vistos como um termômetro da confiança dos investidores. Quando seus rendimentos sobem, como agora, sinalizam que o mercado exige compensações maiores para financiar o governo — seja por causa da inflação, do risco fiscal ou de expectativas sobre juros futuros.

Esse movimento ocorre porque quando um governo gasta mais do que arrecada, precisa se financiar emitindo dívida. Nos EUA, isso se dá por meio de letras e títulos do Tesouro, que prometem devolver ao investidor o valor aplicado acrescido de juros. Como o país registrou um déficit de quase US$ 2 trilhões no último ano, o Tesouro precisa emitir dívida equivalente para honrar seus compromissos.

Esses papéis podem ter vencimentos curtos (um a três anos) ou longos (dez a 30 anos). O título de dez anos, em particular, é considerado o mais importante do mundo: serve de referência para hipotecas, empréstimos corporativos e até para decisões de investimento em ações.

Os títulos americanos são vistos como de altíssima qualidade, pois a economia dos EUA é considerada segura. Por isso, em momentos de crise, investidores costumam correr para eles. Mas quando há inflação elevada ou dúvidas sobre a política monetária, esses papéis perdem valor — e seus rendimentos sobem.

A disparada recente tem múltiplas causas, segundo analistas. A percepção de que a inflação continuará elevada faz com que investidores exijam juros maiores para compensar a perda do poder de compra no futuro.

Por outro lado, com a economia americana surpreendentemente resiliente, cresce a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) terá de manter os juros elevados — ou até aumentá-los novamente. Isso reduz o valor dos títulos antigos, que pagam juros menores, e força o mercado a reajustar os rendimentos na revenda para o mercado secundário.

O elevado endividamento público dos EUA acaba se tornando central no atual movimento dos Treasuries, pois levanta dúvidas sobre a sustentabilidade das contas do governo. Quanto maior a necessidade de financiamento, maior a oferta de títulos — o que pressiona seus preços para baixo e seus rendimentos para cima.

Os indicadores da economia americana reforçam o desequilíbrio fiscal do governo Trump.

O petróleo está sendo negociado acima de US$ 100 o barril nos últimos dias. Os preços dos combustíveis nos Estados Unidos estão se aproximando de máximas históricas, com a gasolina em torno de US$ 4,45 o galão e o diesel a US$ 6,52, perto do recorde atingido na semana passada.

Além disso, em agosto passado, a dívida pública bruta dos EUA ultrapassou a marca psicológica de US$ 40 trilhões, segundo dados do Departamento do Tesouro. A dívida bruta representa 124% do PIB dos EUA, o nível mais alto desde a Segunda Guerra. Analistas alertam para o rápido crescimento dos empréstimos nos últimos anos devido aos grandes déficits, que se aproximam de 6% do PIB.

Para agravar o quadro, o governo Trump aumentou drasticamente os gastos devido à guerra com o Irã, enquanto a arrecadação despencou por conta da redução de tarifas e dos cortes de impostos para empresas e grandes fortunas incluídos na Lei de Orçamento Único e Simples (“One Big Beautiful Bill Act”) . Analistas começam a nutrir dúvidas sobre a saúde das finanças públicas dos EUA.

“Os investidores exigem rendimentos mais altos quando acreditam que a inflação corroerá o poder de compra dos pagamentos de juros futuros”, afirma o analista Seth Carlos, do JP Morgan. “Em última análise, a política monetária do Federal Reserve, a política econômica do governo atual, as necessidades de financiamento do governo e a demanda externa são fatores-chave que influenciam as taxas de juros dos títulos do Tesouro.”

Investimento em IA

Mesmo com oscilações pontuais, analistas afirmam que os fatores que impulsionam os rendimentos dificilmente desaparecerão no curto prazo. O forte investimento em IA nos EUA está acelerando o crescimento econômico — o que, por sua vez, alimenta expectativas de inflação e juros mais altos. Além disso, o governo tem emitido mais dívida para financiar projetos ligados à tecnologia, aumentando a oferta de títulos.

O conflito dos EUA com o Irã mantém os preços da energia elevados, pressionando a inflação global. Bancos centrais como o Federal Reserve, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão já elevaram juros recentemente e podem fazê-lo novamente. O Banco da Inglaterra também sinalizou novas altas.

Com governos gastando mais e pagando juros mais altos, as escolhas orçamentárias ficam mais difíceis. O Instituto de Finanças Internacionais estima que economias avançadas pagaram US$ 3,3 trilhões em juros sobre dívida soberana no último ano — mais do que os gastos globais com inteligência artificial, defesa ou energia limpa.

Para se ter uma ideia do peso dos títulos do Tesouro, o mercado de dívida dos EUA soma US$ 9,32 trilhões em circulação. Mais de um terço está nas mãos de investidores estrangeiros e bancos centrais. O maior credor externo é o Japão, com US$ 1,11 trilhão em títulos. Mas, com os rendimentos japoneses também em alta, os papéis americanos enfrentam concorrência crescente.

A pressão sobre os rendimentos, por sinal, é global. Além da França, os títulos de 30 anos ultrapassaram 6%, o maior nível desde 1998, no Reino Unido. O mercado imobiliário já sente o impacto: os preços das casas crescem no ritmo mais lento em dois anos. No Japão, após décadas de deflação, a inflação finalmente ganhou força — e os rendimentos dos títulos soberanos registraram o quinto trimestre consecutivo de ganhos de dois dígitos, algo inédito.

Apesar da turbulência nos mercados de dívida, as ações permanecem estáveis, sustentadas pelo avanço da atividade industrial na Europa e na Ásia, impulsionada pela inteligência artificial.

“O crescimento mais forte encorajou os mercados a concluir que a economia pode sustentar taxas de juros mais altas por mais tempo”, afirma Afonso Borges, analista do Julius Baer.

Para Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC, os mercados simplesmente estão reagindo a anos de inflação acima da meta: “Enquanto não houver aperto monetário, os mercados de títulos exigirão um prêmio para empréstimos de longo prazo.”



Ceará Agora e Diário do Nordeste

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